CONFERÊNCIA ESTADUAL GLBTT

14 A 16 DE MAIO- FLORIPA - SC


Tema da Conferência GLBTT - Santa Catarina - 2008

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Objetivos da Conferência GLBTT/SC:

A cultura sexual brasileira é marcada por claros antagonismos, conciliando valores morais como a virgindade e a castidade à exaltação da sensualidade carnavalesca. Diversos discursos morais e ideológicos sustentam a intolerância diante de comportamentos, práticas e vivências da sexualidade que não estão em conformidade com o padrão heterossexual e patriarcal.

Esta ambivalência característica à cultura sexual brasileira se reflete na dinâmica social contemporânea no país. O Brasil, mesmo congregando o maior numero de cidadãos em paradas do orgulho GLBT no mundo, havendo participado 3 milhões de pessoas da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, em 2007, ainda é uma sociedade marcada por altos índices de violência e de violação dos direitos sociais por motivo de orientação sexual homo ou bissexual e identidade de gênero discordante ao sexo biológico. Estima-se que a cada três dias um cidadão GLBT seja assassinado no Brasil.

A criminalização, a patologizaçao e o repúdio às formas de vivenciar a sexualidade e a identidade de gênero de modo dissonante à normatização compulsória da heterossexualidade e dos papéis tradicionais de gênero, são fundamentadas muitas vezes em discursos religiosos fundamentalistas, ou mesmo em saberes médico-científicos que legitimam o que é ou deixa de ser normal em termos da conduta sexual.
Evidentemente a luta pelos direitos sexuais de grupos sociais não pode ser conivente com práticas eróticas e sociais que violam direitos humanos, tais como a pedofilia e todas as formas de uso e abuso sexual da criança, do adolescente e da pessoa com deficiência físico-mental. Também devem ser combatidas todas as formas do comércio e da exploração sexual, associadas a práticas organizadas internacionais de tráfico de pessoas, da escravidão no exercício sexual e profissional da prostituição, no abuso sexual em todos os ambientes (conjugal, doméstico, familiar, escolar, profissional). A associação linear de GLBT a práticas ilícitas relativas à sexualidade, no entanto, deve ser prontamente repudiada através do reconhecimento da legitimidade das relações homoafetivas e das apresentações sociais de gênero discordantes do padrão estereotipado da diferença binária entre os gêneros masculino e feminino. A vivência da sexualidade e dos papéis sociais de gênero, portanto, estão sujeitas a processos normativos e naturalizantes baseados em prescrições morais e unívocas.

Um Estado democrático de direitos não pode ser conivente com práticas sociais e institucionais que criminalizam, estigmatizam e marginalizam as pessoas por motivos de sexo, orientaçãosexual e/ou identidade de gênero, caso o exercício da sexualidade do indivíduo não comprometa os direitos humanos de outrem. A prática sexual consentida entre adultos do mesmo sexo é um direito de foro íntimo, bem como o é a apresentação social do sentimento de pertencimento a um determinado gênero, independente do sexo biológico. O arbitrário rebaixamento moral de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, que sustenta respectivamente a homofobia, a lesbofobia, a bifobia e a transfobia, associa preconcebidamente as práticas homoeróticas e as apresentações sociais de gênero discordantes do sexo biológico ao desvio moral de conduta.

A violação de vários direitos sociais de GLBT está associada a esta idéia de desvio moral ou anomalia social, privando estes cidadãos dos direitos de ir e vir, da liberdade de expressão e associação, do livre desenvolvimento da personalidade, da autonomia e dignidade, comprometendo os direitos sociais à saúde, ao trabalho, à educação, ao emprego, ao lazer, e à segurança privada e pública.

O avanço na promoção da cidadania de GLBT requer o reconhecimento do direito sexual como direito humano, bem como o alargamento dos sujeitos a que se referem estes direitos, democratizando a discussão sobre direitos sexuais para além do recorte de gênero, alcançando outros atores sociais que sofrem violação de seus direitos devido à sexualidade, como GLBT e profissionais do sexo.

A consideração Bioética das novas tecnologias e intervenções sobre os corpos é também fundamental para a garantia de diversos direitos de cidadania. O compromisso ético-político com a superação dos processos de estigma e marginalização de GLBT requer o questionamento de medidas correcionais (tratamentos curativos para as homossexualidades e para a travestilidade e transexualidade), bem como a democratização dos benefícios decorrentes dos avanços técnico-científicos, como é o caso das novas tecnologias de reprodução humana assistida, por exemplo.

O desafio que se coloca ao Estado brasileiro é o da mudança de valores e representações sociais, bem como de dinâmicas institucionais, que violam sistematicamente os direitos de GLBT, resgatando estes sujeitos de um quadro alarmante de exclusão e prejuízo social rumo à inclusão e ao pleno exercício e gozo da cidadania. A condição para o cumprimento do avanço do processo de democratização e da promoção da cidadania GLBT requer, portanto, esforços de articulação entre diversos atores sociais, aliando a sociedade civil organizada à academia e à gestão das políticas públicas para a efetivação de uma necessária e profunda transformação social.

A promulgação da Constituição Brasileira de 1988 foi um marco histórico, jurídico e ético-político que criou condições para o aprofundamento das discussões e ampliação das mobilizações sociais, além de propiciar a adoção de medidas institucionais voltadas para garantir a construção de uma cultura em defesa dos direitos humanos e do respeito às diversidades, afirmando a heterogeneidade e a pluralidade como valores nacionais.

A garantia dos direitos constitucionais, no entanto, não encontra na realidade cotidiana o asseguramento de seu cumprimento para variadas parcelas da população que estão vulneráveis aos processos de exclusão social devido a fatores como condição sócio-econômica, regional, de idade, gênero, etnia, cor, e também populações em situação de rua, em situação carcerária, pessoas com deficiência físico-mental, idosos, dentre outros. A orientação sexual e a identidade de gênero devem ser compreendidas como condicionantes e determinantes da situação de vida das pessoas na sobredeterminação a estes outros fatores de vulnerabilidade.

A atuação dos movimentos sociais organizados é pautada principalmente na denúncia e no enfrentamento às discriminações e iniqüidades, buscando reafirmar e garantir os direitos humanos e sociais com equidade para distintos grupos sociais. A população GLBT vem se organizando e alcançando visibilidade em vários eventos de repercussão nacional, como também na inclusão do tema nas agendas de representantes do legislativo e de governos sensíveis às questões sociais.

A mobilização da sociedade civil pela reivindicação de direitos igualitários para GLBTT vem ascendendo fortemente no Brasil, tendo sido realizadas, em 2005, 75 paradas em diversas localidades do país, passando o número de manifestações em 2006 para 102 paradas, aumentando para 300 o número de eventos políticos pela visibilidade desta população previstos para 2007, segundo comunica em rede a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT).

Esta ampla mobilização social é conseqüência da crescente organização do movimento GLBTT no Brasil, bem como da abertura de espaços governamentais para a discussão de estratégias de enfrentamento dos processos discriminatórios contra grupos sociais que seriam alvo de estigmas e preconceitos excludentes.

No fim da década de 90, surge uma experiência inédita no Brasil, que propõe política pública específica a GLBTT no campo da segurança pública. Trata-se da iniciativa do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Segurança Pública, da criação do Disque Defesa Homossexual (DDH), com a função de denúncia e defesa dos direitos dos cidadãos, através de articulação entre sistema de polícia e comunidade. Esta iniciativa é de grande relevância, pois até então, os dados de violência contra GLBTT no Brasil eram apenas notificados através da mídia, o que veio sendo sistematizado e divulgado através de dossiês pelo Grupo Gay da Bahia desde a década de 80.

O DDH, bem como as mais recentes iniciativas de pesquisa com amostras populacionais nas Paradas do Orgulho GLBT, articuladas em parcerias profícuas entre entidades da sociedade civil, a academia e o apoio do Governo Federal, tiveram como efeito o reconhecimento do caráter amplo e silencioso da homofobia, que emerge como prática discriminatória que atravessa campos cotidianos da vivência de GLBTT, como a família, a vizinhança, a escola, o trabalho, partilhando agressor e vítima da mesma rede social, na maior parte das vezes.

As evidências resultantes destas pesquisas revelam um quadro preocupante de violência e violação dos direitos humanos de GLBT, sendo contabilizado um percentual que chega a 72% o número de sujeitos que relatam haverem sofrido discriminação em função de sua sexualidade. Os contextos de maior discriminação foram indicados, em todos os estudos, como sendo o da vizinhança e círculo de amizades, seguido pelo ambiente familiar, escolar e religioso. Delegacias de polícia, centros de saúde e espaços de lazer também são mencionados como ambientes marcados pela homofobia, lesbofobia e transfobia. Travestis e transexuais aparecem como o segmento mais vulnerável as agressões físicas e verbais, chegando o percentual em torno de 50% para a incidência da violência social e institucional.

A articulação entre a sociedade civil e o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde merece ser destacada por estruturar o processo de organização da comunidade GLBT em defesa de seus direitos, inicialmente imersos na problemática da epidemia, mas paulatinamente associando a vulnerabilidade de GLBT aos agravos à saúde à violação social e institucional de seus direitos humanos. A constituição do SOMOS marca, em 1978, a origem do movimento GLBTT no Brasil. Na ocasião, o movimento social se definia genericamente como MHB, Movimento Homossexual Brasileiro. Após 15 anos, em 1993, o movimento passa a ser referenciado como MGL, Movimento de Gays e Lésbicas, sendo em 1995 feita a menção à sigla GLT, em referência a Gays, Lésbicas e Travestis. A partir de 1999, o movimento passa a ser definido pela sigla GLBT, indicando em sua composição os segmentos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros, agregando esta última denominação travestis e transexuais.

Apesar de se fortalecer enquanto movimento único, a organização política da comunidade GLBT é bastante plural, havendo organizações mistas (como é exemplar o caso da ABGLT), mas também dispondo as lésbicas de redes e organizações específicas, como a Associação Brasileira de Lésbicas – ABL –, e a Liga Brasileira de Lésbicas – LBL – , assim como as travestis também dispõem de espaços de articulação autônomos, como a Associação Nacional das Transgêneros – ANTRA – , o mesmo ocorrendo para homens e mulheres que vivenciam a transexualidade, através da articulação do Coletivo Nacional de Transexuais – CNT, e bissexuais através do Coletivo Brasileiro de Bissexuais – CBB.

A Conferência Nacional de Políticas para a População de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNGLBT), tem como principal objetivo propor as diretrizes para a implementação de políticas públicas e a construção do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de GLBT, fortalecendo e avançando na implementação do Brasil sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLBT, lançado pelo Governo Federal em 2004 após ampla articulação entre a gestão federal e a sociedade civil representada no Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD).

O Programa Brasil sem Homofobia explicita o compromisso estatal com a promoção de políticas públicas que venham garantir a efetividade dos direitos à população GLBT, sendo uma importante aliança entre o Governo Federal e a Sociedade Civil Organizada. Apresenta como princípios:

· A inclusão da perspectiva da não-discriminação por orientação sexual e de promoção dos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais, nas políticas públicas e estratégias do Governo Federal, a serem implantadas (parcial ou integralmente) por seus diferentes Ministérios e Secretarias;

· A produção de conhecimento para subsidiar a elaboração, implantação e avaliação das políticas públicas voltadas para o combate à violência e à discriminação por orientação sexual, garantindo que o Governo Brasileiro inclua o recorte de orientação sexual e identidade de gênero em pesquisas nacionais a serem realizadas por instâncias governamentais da administração pública direta e indireta;

· A reafirmação de que a defesa, a garantia e a promoção dos direitos huma­nos incluem o combate a todas as formas de discriminação e de violência e que, portanto, o combate à homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia e a promoção dos direitos huma­nos de GLBT é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira.

O compromisso da gestão na implementação de políticas públicas que venham promover e assegurar os direitos sociais de GLBT, mediante a participação e o protagonismo social no desenho das estratégias de ação necessárias, é fundamental para que o Brasil avance em seu projeto democrático.

Espera-se que as Conferências Estaduais e a Conferência Nacional de Políticas para a População GLBT promovam processos de articulação e pactuação de interesses e de responsabilidades entre a gestão e a sociedade civil, unindo esforços para um efetivo processo de mudanças sociais e institucionais em prol dos direitos de todos
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Realização:
 

Realização:

Governo do
Estado de Santa Catarina

SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA DO CIDADÃO

SECRETARIA DE ESTADO DA ASSISTÊNCIA SOCIAL, TRABALHO E HABITAÇÃO

SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE



 

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